A antiga Usina de Beneficiamento
de Algodão de São José do Egito, localizada no Sertão do Pajeú, carrega uma
história rica, tanto no âmbito industrial quanto cultural. Construída durante o
auge da produção algodoeira na região, a usina foi um marco de desenvolvimento
econômico para a cidade e o Nordeste. Durante décadas, desempenhou um papel
central no processamento do algodão, sendo um pilar da economia local até sua
desativação.
No auge de suas atividades, a
usina foi ainda palco de manifestações culturais, incluindo circo, teatro,
cantorias e serestas, além de fornecer energia para a cidade através de um
sistema termodinâmico, antes da construção da hidrelétrica de Paulo Afonso.
Após seu fechamento, o prédio
ficou abandonado, mas sua importância cultural não foi esquecida. Na década de
1980, a artista, ativista e educadora Clene Valadares ocupou o espaço, criando
a “Escola Usina de Algodão”, que oferecia cursos de línguas, artes, capoeira,
além de uma escola maternal, uma biblioteca comunitária e um museu popular.
Durante a década de 1990, o
espaço chegou a contar com o trabalho de uma funcionária municipal para a
biblioteca comunitária da Usina, uma vez que a cidade ainda não tinha uma
biblioteca pública, que seria fundada posteriormente.
Nos anos 2000, diante da ameaça
de demolição pelo poder público municipal, a comunidade se mobilizou em defesa
de sua preservação. O Conselho de Cultura do Estado foi acionado para intervir.
A população de São José do Egito, conhecida como a "Terra da Poesia",
assistia com tristeza à possível destruição de um edifício que representava uma
memória viva de sua história econômica e cultural.
Foi nesse cenário que, em janeiro
de 2007, surgiu o "I Festival Porta da Índia de Cultura Livre",
realizado dentro da própria usina. Inspirado pelas ocupações contraculturais, o
festival trouxe múltiplas linguagens artísticas, como música, teatro, poesia,
cinema e artes visuais. O objetivo era não apenas celebrar a diversidade
artística da cidade, mas também chamar a atenção para a preservação da usina
como patrimônio histórico. A essência do festival estava enraizada em um senso
de urgência, com o intuito de valorizar a história social e cultural daquele
espaço ameaçado.
No ano seguinte, em janeiro de
2008, o festival retornou para uma segunda edição, ainda maior. A divulgação em
programas televisivos, como o "Sopa Diário", trouxe maior
visibilidade ao evento, atraindo caravanas de artistas e espectadores. O clima
de efervescência cultural e sincronia criativa seguiu fortalecendo o festival
como um ponto de encontro para expressões culturais contra-hegemônicas.
Clene, a sacerdotisa desse
espaço, ancestralizou em 2019, no entanto o projeto de memória da multiartista,
ativista e educadora continuou. Seu legado de resistência foi eternizado em um
livro póstumo intitulado “Sendo Maria Também, Que Destino Me Convém”,
organizado por sua filha e com incentivo do FUNCULTURA, tendo sido acompanhado
de diversas ações educativas e culturais, como espetáculos, lives e oficinas de
leitura e escrita. Atualmente, reforçando a continuidade do projeto em
2023/2024, temos nos aproximado da Escola Livre de Museologia Política, nos
matriculando em suas diversas formações que tem nos possibilitado diversas
trocas, onde prosseguimos engajados nessa potente partilha de experiências com
outros grupos e espaços de memória e ancestralidade.
Atualmente o poder público municipal novamente ameaça o patrimônio industrial e a memória social de nosso povo, agora, segundo fontes confiáveis, à serviço da especulação imobiliária. nesse sentido, a secretaria de obras construiu um laudo que autoriza a demolição total do prédio histórico, em função de interesses privados, sem observar a grandeza histórica da citada edificação.
Nesse sentido é urgente que se instaure um processo de tombamento e um plano de restauro do espaço, com a ciencia de todas as potencialidades desta edificaçãotão amada por nós.







