10 maio 2026

breve histórico da luta pela usina

 

A antiga Usina de Beneficiamento de Algodão de São José do Egito, localizada no Sertão do Pajeú, carrega uma história rica, tanto no âmbito industrial quanto cultural. Construída durante o auge da produção algodoeira na região, a usina foi um marco de desenvolvimento econômico para a cidade e o Nordeste. Durante décadas, desempenhou um papel central no processamento do algodão, sendo um pilar da economia local até sua desativação.

No auge de suas atividades, a usina foi ainda palco de manifestações culturais, incluindo circo, teatro, cantorias e serestas, além de fornecer energia para a cidade através de um sistema termodinâmico, antes da construção da hidrelétrica de Paulo Afonso.

Após seu fechamento, o prédio ficou abandonado, mas sua importância cultural não foi esquecida. Na década de 1980, a artista, ativista e educadora Clene Valadares ocupou o espaço, criando a “Escola Usina de Algodão”, que oferecia cursos de línguas, artes, capoeira, além de uma escola maternal, uma biblioteca comunitária e um museu popular.

Durante a década de 1990, o espaço chegou a contar com o trabalho de uma funcionária municipal para a biblioteca comunitária da Usina, uma vez que a cidade ainda não tinha uma biblioteca pública, que seria fundada posteriormente.

Nos anos 2000, diante da ameaça de demolição pelo poder público municipal, a comunidade se mobilizou em defesa de sua preservação. O Conselho de Cultura do Estado foi acionado para intervir. A população de São José do Egito, conhecida como a "Terra da Poesia", assistia com tristeza à possível destruição de um edifício que representava uma memória viva de sua história econômica e cultural.

Foi nesse cenário que, em janeiro de 2007, surgiu o "I Festival Porta da Índia de Cultura Livre", realizado dentro da própria usina. Inspirado pelas ocupações contraculturais, o festival trouxe múltiplas linguagens artísticas, como música, teatro, poesia, cinema e artes visuais. O objetivo era não apenas celebrar a diversidade artística da cidade, mas também chamar a atenção para a preservação da usina como patrimônio histórico. A essência do festival estava enraizada em um senso de urgência, com o intuito de valorizar a história social e cultural daquele espaço ameaçado.

No ano seguinte, em janeiro de 2008, o festival retornou para uma segunda edição, ainda maior. A divulgação em programas televisivos, como o "Sopa Diário", trouxe maior visibilidade ao evento, atraindo caravanas de artistas e espectadores. O clima de efervescência cultural e sincronia criativa seguiu fortalecendo o festival como um ponto de encontro para expressões culturais contra-hegemônicas.

Clene, a sacerdotisa desse espaço, ancestralizou em 2019, no entanto o projeto de memória da multiartista, ativista e educadora continuou. Seu legado de resistência foi eternizado em um livro póstumo intitulado “Sendo Maria Também, Que Destino Me Convém”, organizado por sua filha e com incentivo do FUNCULTURA, tendo sido acompanhado de diversas ações educativas e culturais, como espetáculos, lives e oficinas de leitura e escrita. Atualmente, reforçando a continuidade do projeto em 2023/2024, temos nos aproximado da Escola Livre de Museologia Política, nos matriculando em suas diversas formações que tem nos possibilitado diversas trocas, onde prosseguimos engajados nessa potente partilha de experiências com outros grupos e espaços de memória e ancestralidade.

Atualmente o poder público municipal novamente ameaça o patrimônio industrial e a memória social de nosso povo, agora, segundo fontes confiáveis, à serviço da especulação imobiliária. nesse sentido, a secretaria de obras construiu um laudo que autoriza a demolição total do prédio histórico, em função de interesses privados, sem observar a grandeza histórica da citada edificação.

Nesse sentido é urgente que se instaure um processo de tombamento e um plano de restauro do espaço, com a ciencia de todas as potencialidades desta edificaçãotão amada por nós.

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